Dia da Visibilidade Lésbica: conheça o significado de 'couro', 'velcro', 'brejo' e outras gírias da comunidade
29/08/2025
(Foto: Reprodução) Por que agosto é considerado o mês da visibilidade lésbica?
"Sapatão", "desfem" ou "chupa-charque". Os termos e as gírias utilizados para se referir às lésbicas no dia a dia são muitos e podem variar de contexto ou região, mas o que todos eles têm em comum é o reforço de uma identidade.
Nesta sexta-feira (29), Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, o g1 traz um glossário de expressões criadas por essa construção coletiva que, assim como a própria língua portuguesa, é viva e se transforma no tempo e no espaço.
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Para Rivania Rodrigues, integrante do Coletivo de Lésbicas e Mulheres Bissexuais de Pernambuco (Comlesbi) e articuladora da Rede Nacional de Lésbicas e Bissexual Negras Feminista (Rede CANDACES), os termos podem ser usados tanto de forma empoderadora dentro da comunidade como de maneira pejorativa em contextos homofóbicos.
"Algumas dessas palavras são conhecidas por serem usadas de forma coloquial ou como gírias em certas situações. É importante notar que o uso desses termos pode variar amplamente e ser percebido de maneira diferente, dependendo do contexto e das pessoas envolvidas", explicou.
Em meio à diversidade de termos utilizados, um que se destaca, sem dúvida, é "sapatão". Cinthia Fernanda de Baru, que também integra a Rede CANDACES, conta que foi subvertendo o significado pejorativo da palavra que a comunidade lésbica se apropriou dela como forma de representatividade.
"Sapatão é a nossa referência. Ele deixou de ser um termo agressivo, que feria, para virar uma identidade nossa. A gente recebeu muito esse termo, ao longo dos anos, como uma agressividade. Eles nos agrediam chamando a gente de sapatão. Nós ressignificamos e assumimos como identidade. Somos, sim, sapatão! Sejam as "desfem", as "femininas", as de "sítio", a "rural" (...) Nós nos identificamos todas como sapatão", contou.
Glossário lésbico
Bandeiras LGBTT no Cais José Estelita, no Recife
Marlon Costa/Pernambuco Press
Confira, abaixo, algumas das gírias e expressões mais conhecidas da comunidade lésbica:
Sapatão: termo utilizado para se referir a todas as lésbicas e que tem como variações "sapa" e "sapata";
Sapatrícia: junção das palavras "sapa" e "patrícia" (variação de "patricinha"), refere-se a lésbicas que têm um estilo associado à feminilidade;
Desfem: abreviação de "desfeminilizada", é um termo usado por lésbicas que contestam a feminilidade associada ao gênero feminino. Outros termos como "lésbica boy" e "caminhoneira" também já foram utilizados para denominar lésbicas que não performam o que muita gente entende como "comportamento feminino", mas não deixam de ser mulheres;
Entendida: lésbicas "mais velhas", que estão na faixa etária a partir dos 50 anos;
Sandalhinha ou sapatilha: lésbicas mais jovens;
Chupa-charque: sinônimo de "sapatão" no Nordeste, a gíria faz referência ao sexo oral entre mulheres, relacionando essa prática à carne de charque, item bastante popular na região;
Sapatão de sítio ou rural: lésbicas que vivem no campo ou que gostam de realizar atividades ligadas ao dia a dia numa área rural, como pesca e fazer churrasco na roça;
Brejo: local com muitas lésbicas reunidas;
Cheiro de couro: "sentir" a presença de lésbicas por perto. A expressão se popularizou em meme da personagem Nazaré Tedesco, interpretada por Renata Sorrah na novela da "Senhora do Destino" em 2004;
Colar velcro: ato sexual entre mulheres;
Rebuceteio: quando várias lésbicas, que podem ou não ser de um mesmo ciclo social, se relacionam e, de alguma forma, se conectam;
Olhar amadeirado: lésbicas que passam uma "energia" de confiança e que se destacam num grupo.
Contexto histórico
De acordo com a pesquisadora e mestra em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Carla Lemos, o dia 29 de agosto foi escolhido como Dia Nacional da Visibilidade Lésbica a partir da realização do I Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), no Rio de Janeiro, em 1996.
"O evento reuniu pela primeira vez mulheres de vários estados do Brasil para tratar das especificidades lésbicas. Antes era reconhecido como movimento homossexual brasileiro com várias iniciativas, porém, havia a denúncia das mulheres por misoginia e não priorização das pautas específicas que a comunidade pedia, especialmente as questões de saúde das lésbicas, fato que na época não era abordada, pois trazia o olhar heteronormativo", afirmou.
Segundo a pesquisadora, as expressões ligadas à comunidade passaram por um processo de transformação ao longo das últimas décadas.
“Na década de 1970 e 80, vários termos eram usados para questionar a identidade lésbica porque foge da norma heteronormativa. Logo, como forma de questionar a prática sexual, alguns termos eram usados, como "caminhoneira", que explicitava a construção do corpo lésbico que não expressava feminilidade nem estava na caixa normativa da heterossexualidade”, afirmou.
Ainda segundo ela, expressões como “saboeira, sapatão, chupa-charque e mal-amada” eram utilizadas de forma pejorativa para colocar em xeque a lesbianidade. No entanto, a partir de 2010, muitos desses termos foram ressignificados pelos movimentos lésbico e lésbico-feminista, passando a ter um cunho político e de resistência.
“Evidente que há casos que são considerados lesbofobia, visto o teor da fala, mas os movimentos lésbicos e feministas têm ressignificado e trazido o cunho político”, disse.
A pesquisadora também destacou que a performance de gênero sempre funcionou como um mecanismo de controle dos corpos. Na dissertação de mestrado "Movimentos de lésbicas de Pernambuco: uma etnografia lésbica feminista", ela entrevistou 18 mulheres de todas as regiões do estado sobre o assunto (confira a pesquisa completa).
Segundo a pesquisadora, há uma discussão sobre a performance "não feminina" como forma de se proteger dos assédios praticados por homens.
“O termo ‘desfem’ constrói a resistência dos corpos que não formalizam a feminilidade. No entanto, não se restringe apenas às lésbicas, mas também se estende a outras identidades e orientações sexuais”, explicou.
⬇️ Assista ao vídeo abaixo e sabia por que agosto é o Mês da Visibilidade Lésbica:
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